quinta-feira, 23 de março de 2017

Carne fraca, miolo mole

A Operação Carne Fraca, que revelou irregularidades na atuação de frigoríficos brasileiros, traz aspectos característicos dos dias de hoje: muita luz, pouco calor, uma imensa egotrip por parte dos investigadores e uma grave irresponsabilidade por parte da mídia. Nesse caso, temos um grande bufê a quilo de denúncias. Algumas sérias, outras vagas.

Se houve malfeitos, não se pode omiti-los. Devem ser combatidos com os rigores da lei. Mas dada a relevância da indústria de carnes para o Brasil, a regra número um deveria ter sido a precisão ao se anunciar publicamente os resultados dessa operação. Não houve tal cuidado.



Em tempos de busca pelo espetáculo e de ativismo, muitas vezes ilegal e irresponsável, vale tudo. Em meio a tanta inconsistência, o noticiário mistura alhos com bugalhos – fruto também de uma crescente carência de recursos humanos na mídia, que, certamente, já viveu tempos melhores – e chegamos ao show business, tão necessário aos hits que fazem a alegria dos anunciantes. Até a hora que eles passarem a ser vítimas/protagonistas do espetáculo.

Relatório recente da Freedom House alerta para os riscos, concretos e preocupantes, que a liberdade de expressão está correndo. Por outro lado, porém, consumimos inúmeras notícias podres, contaminadas pela salmonella ideológica e pelo vício de destacar o negativo. Ninguém alerta para tal fenômeno nos tempos modernos. Tampouco a mídia, por empáfia e corporativismo, se dedica a fazer um exercício correto de autocrítica de seus erros e excessos. A ponto de, em alguns momentos, deixar que a imprecisão substitua o rigor jornalístico que alguns temas complexos exigem.

Enfim, é também um grave risco para a saúde pública e para a cidadania a contínua contaminação da população por notícias podres, pós-verdadeiras, factoides.

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