quinta-feira, 24 de maio de 2018


Aprendendo com Brasil

Não seria possível arrolar as vezes que o Brasil foi mencionado por cronistas, missionários, viajantes, historiadores, escritores e curiosos. Quando pesquisamos os viajantes estrangeiros que falaram do Brasil, logo descobrimos como eles foram cegos ou míopes em relação a certos assuntos, ao mesmo tempo que, ironicamente, foram nítidos e certeiros relativamente a outros. Nós vemos o que os que nos visitaram não viram e eles viram o que nós não queríamos ou conseguíamos ver.

Todo antropólogo cultural sabe que ninguém enxerga tudo. Como dizia um dos expoentes da disciplina, E. E. Evans-Pritchard: “Na ciência, como na vida, só se acha o que se procura”. Foi, aliás, com essa advertência que eu abri o livro Relativizando no qual apresento uma visão embrionária da antropologia, destinada a estudantes e leigos. Pensando nessa equação entre o achar e o procurar, nesse mesmo livro eu assinalei que cada antropólogo tem inevitavelmente a tribo que merece.

A questão, porém, é quando se acha o que não se procura. Como a assombrosa prevenção contra os “índios” testemunhada por mim em 1959-60, confirmando o preconceito de não ter preconceito, denunciado por Florestan Fernandes. Uma falsa inocência tão maligna quanto o refrão “tudo foi feito dentro da lei”...

Consciente dessas descontinuidades de olhares, eu imagino o que os historiadores do futuro dirão do Brasil de hoje. Certamente, o espanto não vai estar no que foi superado, mas nos costumes que julgávamos suplantados ou extintos, mas que insistem e permanecem vivos até hoje.


Um deles é o pedir aos outros que façam alguma coisa para nós. “Será que você pegava o óculos do vovô?” é uma demanda situada entre o pedido de favor (opcional, mas sujeito ao famoso “você é imprestável”) e a ordem (que não deixa escolha) muito comum aqui em casa.

Tal transferência de serviço para um outro na forma de um favor foi notada pelos que nos visitaram no século 19. Sobretudo pelos visitantes cujo “lugar de fala” eram sistemas mais igualitários e individualistas que agora estavam enfurnados numa sociedade relacional, aristocrática de molde branco europeu, mas sustentada por uma imensa escravaria negra africana.

Vindos de sociedades inventoras de expressões como “leave me alone” (deixe-me só), “do it yourself” e do “take good care of yourself” (faça você mesmo, cuide bem de você mesmo) - os reflexivos salientando um estilo de vida individualista, eles se espantaram com um estilo de vida em que havia intermediários para falar com Deus, com o rei, com os amigos e com os criados. Foi o surpreendente Borges quem chamou minha atenção para esses - “get your self a wife” (arranje para você mesmo uma esposa), impraticáveis para quem sempre teve um escravo, um criado, ou uma boa mãe ou esposa para “tomar conta” e “cuidar” de quem foi de treinado para depender e a ter dependentes. Traço que é um dado inconsciente da própria natureza da vida social entre nós. “Se titio virar ministro, ele emprega toda a nossa família!”, eis - com as variantes de praxe - o axioma da cultura nacional.

Esse “tomar conta” é enorme: ele vai do oferecer e do prestar favor e cobre igualmente o servir o nosso prato, arrumar a nossa cama, nos dar remédio na doença e nos fazer companhia em viagens ou quando estamos solitários. Serve também para nos controlar ou “vigiar”.

Como não aprendemos a dizer não a nós mesmos, esses irmãos siameses servem de limites ou de cúmplices. O resultado é o extraordinário conjunto de crimes em quadrilha e partidários, realizados no modo relacional que hoje ameaça o funcionamento de uma democracia igualitária fundada no cidadão individual e não na companheirada partidária ou corporativa.

O fato é que, no Brasil, o isolamento é visto como um castigo. Quando alguém trai lealdades, ele é posto “no gelo” e suspenso da rede social. “Eu não falo mais com ele” revela não apenas incompatibilidades, mas desdém, desprezo e abandono - essas mortes em vida. Por outro lado, a dificuldade de separar pessoas carregadas de lealdades com outras pessoas de instituições e normas é o resultado de um sistema forjado por dependências pessoais. Nunca somos apenas um e no mundo político e religioso isso ficou bem claro para certos visitantes, sobretudo os que - como foi o caso de Thomas Ewbank - fizeram uma verdadeira etnografia do Rio de Janeiro dos 1850. Suas observações sobre as múltiplas manifestações da hierarquia e da importância das relações na vida cotidiana são numerosas e elucidativas.

Ewbank observou com método e por assunto, cobrindo um vasto campo da vida social brasileira num mesmo momento - vale notar - em que Manuel Antônio de Almeida publicava em folhetins o seu clássico Memórias de Um Sargento de Milícias. Num caso, uma ficção localizada no passado, no outro uma etnografia falando do presente. Em Almeida dramas, em Ewbank análise de uma realidade que o tempo apagou. Em Memórias, uma dupla ética; em Ewbank, a percepção aguda da hierarquia e da escravidão. Ambos mostrando como se aprende com o que chamamos Brasil.

Mortalidade infantil impõe queda de braço com ajuste fiscal de Temer

O congelamento de gastos planejado pelo Governo de Michel Temer como resposta à crise econômica poderá ter um impacto direto na mortalidade de crianças, aponta um estudo feito por analistas ligados à Fiocruz e divulgado nesta terça-feira pela revista científica norte-americana PLoS Medicine. Os pesquisadores fizeram uma simulação de quantas mortes de menores de cinco anos poderiam ser evitadas até 2030 caso os programas Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família tenham seus orçamentos aumentados de forma proporcional ao acréscimo no número de pobres no país. Seriam 19.732 mortes a menos até 2030 em comparação com o cenário mais provável, o de que os orçamentos aumentem apenas segundo a inflação do ano anterior, como prevê, de forma global para todas as pastas do Governo, a Emenda Constitucional 95(antiga PEC 241). A extrema pobreza no Brasil aumentou 11% entre 2016 e 2017, mas o orçamento do Bolsa Família previsto para este ano é menor do que o do ano passado.

"Quando você congela os gastos, ou seja, os ajusta de acordo com a inflação, você não consegue manter o nível de proteção social que você tinha antes”, diz Davide Rasella, do Instituto de Saúde de Coletiva da Universidade Federal da Bahia e principal autor do estudo. Segundo ele, a matemática não fecha porque há três dinâmicas sociais que não estão sendo ajustadas: primeiro, o crescimento populacional que faz com que se tenha menos dinheiro por pessoa. Depois, o envelhecimento populacional, dinâmica importante tanto para a assistência social como para a saúde. E, ainda, a inflação da tecnologia da saúde, que faz com que os custos da área aumentem a cada ano.

O estudo se apoia em duas notas técnicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgadas em 2016, logo após a aprovação da Emenda Constitucional que congela os gastos do Governo. A primeira delas afirmava que em 20 anos de aplicação da PEC a política de assistência social brasileira, que comporta o Bolsa Família, contaria com menos da metade dos recursos necessários para garantir a manutenção da cobertura nos padrões atuais. A segunda nota apontava que, até 2036, o Sistema Único Brasileiro (SUS), responsável pelo Saúde da Família, perderia cerca de 400 bilhões de reais —número similar ao achado por outro estudo, do Conselho Nacional de Saúde.

Os pesquisadores também se basearam em outra nota, do Banco Mundial, que recomendou um aumento no orçamento do Bolsa Família em 2017 para 30,41 bilhões de reais para fazer frente aos brasileiros que entraram na faixa da pobreza pela severa crise econômica. "A distribuição do orçamento adicional do Bolsa Família para as famílias recém elegíveis entre os novos pobres pode evitar que a taxa de pobreza extrema no Brasil aumente para além do nível de 2015", afirma este estudo. Em 2017, o Governo gastou 28,9 bilhões para 13,8 milhões de famílias, aponta o site Poder 360. Para 2018, o orçamento previsto para o programa é menor: 28,2 bilhões, para 13,9 milhões de beneficiários. O Governo, entretanto, anunciou um reajuste no valor repassado às famílias no último dia primeiro.


Com base nos dados apresentados nesses três estudos, os pesquisadores consideraram três cenários distintos de crise econômica e seus efeitos no aumento da pobreza entre 2015 e 2030, um período de 15 anos. No primeiro cenário, mais moderado, se considerou que a taxa de pobreza aumentaria até 2017 e depois voltaria a cair até 2030. No segundo, considerado por eles o mais provável, a pobreza deixaria de aumentar após 2019. E no terceiro, mais agudo, o aumento da pobreza só pararia após 2021. Para cada um dos três cenários se estipulou duas possibilidades: a de o orçamento do Bolsa Família e do Saúde da Família aumentarem de acordo com o crescimento da pobreza; e a de os dois programas sofrem o efeito da Emenda Constitucional, ou seja, seus orçamentos só aumentarem pelo reajuste da inflação. A partir daí, eles calcularam em quanto seria impactada a taxa de mortalidade infantil.

Em todos os três cenários de aumento da pobreza, o país mantém a queda da mortalidade infantil vivenciada nos últimos anos —entre 2000 e 2016 ela caiu 31% em números absolutos (de 56.786 para 39.305). Mas essa diminuição varia de acordo com o nível de proteção orçamentária dos dois programas. No segundo cenário de crise, considerado pelos pesquisadores como o mais provável, a manutenção da proteção social adequada traria uma quantidade de mortes infantis 8,57% menor até 2030. Em números brutos, isso representaria 19.732 mortes a menos. No cenário de crise mais branda, se evitaria até em 2030 13.954 mortes. E no de crise mais grave o congelamento de gastos deixaria de evitar 23.424 mortes. O Governo federal refuta a ideia de que o orçamento será congelado e afirma que a cobertura do Bolsa Família tem crescido e vem sendo reajustado.

Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores utilizaram a base de cálculo do impacto dos dois programas na taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos entre 2004 e 2009, observada por eles em outro estudo, publicado em 2013 na também revista científica The Lancet. Na ocasião, eles calcularam todas as causas de mortalidade infantil entre menores de cinco anos, incluindo, por exemplo, desnutrição, diarreia e infecções respiratórias agudas, e montaram modelos matemáticos que isolaram os efeitos do Bolsa Família nestas causas. Com isso, concluíram que o programa foi responsável pela redução de 17% das mortes de crianças menores de cinco anos.

Isso acontece porque o Bolsa Família, segundo os pesquisadores, melhora tanto a qualidade quanto a quantidade de comida das famílias pobres, impactando, especialmente, na diminuição de casos de diarreia e de desnutrição. O programa também aumenta as consultas pré-natal das gestantes e a cobertura vacinal das crianças, pré-requisito para o recebimento do benefício, assim como as consultas com pediatras. Já o Saúde da Família aumenta o número de visitas médicas, já que ele prevê que os profissionais de saúde visitem os domicílios pobres para atender e orientar as famílias. Tudo isso tem impacto no chamado grupo de mortes evitáveis, aquelas que poderiam ser prevenidas por ações efetivas do Governo, como vacinação, atenção adequada à gestante, ao parto e ao recém-nascido, e ações adequadas de promoção à saúde, o que inclui, por exemplo, anemias associadas à deficiências nutricionais.

"A mortalidade de menores de cinco anos tem caído ao longo do tempo. O que importa do ponto de vista de política pública é o que nós podemos fazer para acelerar esta queda. O Bolsa Família é um dos mais bem sucedidos programas de melhoria da situação nutricional das famílias no mundo. Precisa ser utilizado, sim, no controle dos efeitos da crise econômica", ressalta Romulo Paes-Sousa, da Fiocruz Minas Gerais e outro dos autores do estudo.

O sistema de estatísticas do SUS (DataSus) já demonstra que diante do cenário atual de crise a mortalidade infantil está sendo impactada, segundo dados adiantados pelo jornal Valor Econômico no último dia 14 e confirmados por um levantamento feito pelo EL PAÍS no sistema. Os dados apontam que a mortalidade entre crianças de um a quatro anos cresceu 11% no país entre 2015 e 2016, últimos dados disponíveis. Apesar disso, os dados globais de mortes evitáveis de crianças caiu 1,2% no período, impulsionado pela queda ocorrida no grupo dos recém-nascidos que continua.

Quando os dados são analisados por cor ou raça, também percebe-se que o aumento nos dados das crianças entre um e quatro anos se deu especialmente entre brancos e pretos (14%) e indígenas (17%). Apenas Mato Grosso, Santa Catarina, Distrito Federal Sergipe e Tocantins diminuíram seus índices de mortes evitáveis nesta faixa etária. Em Roraima, o aumento chegou a 43% e, se olhados os dados referentes aos indígenas, o número de mortes se elevou em 106% — há anos os indígenas da etnia yanomami, que vivem no Estado, denunciam a precária situação da saúde indígena.

A política de achaques ao cidadão

Vamos explicar o nosso ponto de vista: o Estado achaca os cidadãos por meio de impostos exorbitantes; os políticos achacam a Petrobras para manter o Estado que achaca os cidadãos; a Petrobras achaca os cidadãos por meio do preço dos combustíveis que ajuda o Estado a achacar os cidadãos; os donos das frotas dos caminhões achacam o Estado para diminuir o preço dos combustíveis, sem diminuir o preço repassado aos cidadãos lá na ponta final do consumo; ao diminuir a incidência de impostos no preço do combustível, o Estado irá achacar os cidadãos de outra forma — e tudo continuará como está. 

Com você, cidadão, sendo permanentemente achacado por todo mundo.

Brasil de hoje


No país dos falsos dilemas

A questão do foro especial é mais um dos falsos dilemas brasileiros. A discussão ingressa agora no tema “tira o foro de todo mundo ou não” e engastalha de saída na momentosa questão do “o que, tecnicamente, define uma súmula vinculante” que seria uma das maneiras de estender a derrubada do privilégio para o judiciário e demais caronas. Esperar que o judiciário extinga um privilégio dele próprio é arriscar deixar a coisa rolar por mais 100 anos nesse vai não vai. A “via rápida” seria o legislativo fazer uma lei que anule as diversas leis e quase leis que estenderam indevidamente a regalia. Como, porém, tanta gente lá tem o rabo preso nas garras do judiciário a coisa não é tão simples. E ainda que passasse só como vingança é de esperar, a julgar pela “jurisprudência” mais recente, que o judiciário desfaça o que o legislativo fizer em idas e vindas sucessivas e o país continue parado esperando até que estejamos todos mortos…

Outro ponto a considerar é o vaticínio de Gilmar Mendes de que vamos nos arrepender de termos suspenso o foro especial amplo, geral e irrestrito ao menos para políticos. Diz ele, “conhecedor da nossa justiça criminal que é”, que a impunidade vai ficar mais garantida pelo caminho certo do que estava pelo caminho errado. E o pior é que todo mundo sabe que ele tem razão.

Essa seria a “deixa” para levar a discussão para o que interessa mas o Brasil que precisa disso ficou mudo depois que as escolas de jornalismo conseguiram estabelecer como dogma que o bom jornalista só “ouve fontes” e o exercício do raciocínio próprio para desafia-las e inquiri-las, ainda que seja apenas confrontando-as com os fatos que exponham suas mentiras, seria uma violação do princípio da separação entre opinião e reportagem. O resultado é que “cobrir política” de forma “isenta” passou a significar amplificar o que dizem as fontes oficiais desde que justapondo o dito pela “situação” ao dito pela “oposição” lá do Brasil que manda, deixando o Brasil mandado absolutamente sem voz. É isso que explica porque denunciar e exigir o fim dos privilégios que “situação” e “oposição” gostosamente compartilham enquanto se alternam no poder tornou-se oficialmente “impopular” ou no mínimo “controvertido” em todos os jornais e televisões do país, apesar de estarmos falando da causa primeira e ultima da sangria desatada de todos os bolsos miseráveis da nação estrebuchante para rechear com mais largueza, haja o que houver, os da ínfima minoria não meritocrática dentro da minoria dos mais ricos.


O ponto que interessa ao Brasil mandado é que o foro especial não é “causa” de nada, como dizem por aí, é apenas mais um efeito, ainda que este com poder multiplicador, do defeito essencial que responde por todas as nossas desgraças, que é estar invertido o poder de mando na relação entre representantes e representados da pseudo democracia brasileira. Se tivéssemos, como tem toda democracia de verdade, o direito de demitir, por iniciativa popular e a qualquer momento, políticos e funcionários indignos (recall) e recusar leis pervertidas vindas dos legislativos (referendo), não só o foro especial jamais teria extrapolado a função de proteger a palavra e a ação de quem nós elegemos para falar e agir por nós para a qual foi criado, como também tais palavras e ações jamais se teriam desviado para a criação de uma clientela militante para servir-se do serviço público com o propósito exclusivo de reelege-los em troca do compartilhamento de privilégios indecentes. Se fizéssemos, como faz toda democracia de verdade, eleições periódicas de retenção (ou não) dos juízes encarregados de nos entregar justiça, nós jamais teríamos de temer que levar os crimes comuns dos servidores do povo para a justiça comum pudesse resultar em mais impunidade.

O problema do Brasil sempre foi e continua sendo um só, de uma obviedade mais ululante a cada dia que persiste no seu anacronismo medieval. Pois ha 1/4 de milênio, já, que vem sendo confirmado e reconfirmado pelo argumento indiscutível do resultado que colhe toda e qualquer sociedade que se põe à salvo disso, que é uma lei da natureza que sempre que se concentra o poder esta-se fornecendo um endereço ao bandido que dorme dentro de cada ser humano: “Trabalhar pra quê? Suborne aqui e tenha o seu problema resolvido”. Por isso, em todo o mundo que funciona, a ultima palavra sobre cada medida que possa vir a afetar a vida da coletividade passou a ser da própria coletividade, convertida para efeitos práticos num eleitorado com poderes absolutos mas distritalmente pulverizados, a única maneira de não fornecer endereços a bandidos nem fazer da emenda um desastre pior que o soneto deixando o país sujeito aos golpes e passa-moleques de ilegitimidade que vêm junto com outros sistemas de representação pouco transparentes.

As eleições distritais puras deixam absolutamente claro quem representa quem na relação país real x país oficial. Desconcentram radicalmente o poder e assentam o país sobre uma base ampla e sólida de legitimidade. E, ao mesmo tempo, garantem o controle fino que se requer dos representantes encarregados de operar a reforma permanente das instituições que um mundo implacavelmente dinâmico e competitivo exige, sem o corolário da imprevisibilidade da arbitrariedade do monarca da hora que impede o desenvolvimento baseado na inovação, o único possível hoje.

Não ha como extinguir efeitos sem remover suas causas. O Brasil se tem alternado em variações de fórmulas autoritárias em que “iluminados” tratam de substituir-se ao povo para decidir o que é melhor para o povo e o resultado, salvo alguns soluços de marcha adiante, é uma sucessão de desastres. Mais radicais quanto mais radical for a dose de autoritarismo mas desastres sempre. A escolha real que há é entre aderirmos, finalmente, ao sistema de governo do povo, pelo povo e para o povo, ou nos conformarmos a permanecermos para sempre no século 18 pagando as carências e as doenças do século 18 como estamos hoje.

Fernão Lara Mesquita

'Você é uma preta de alma branca'

O maior número de eleitores nas próximas eleições presidenciais no Brasil, 54%, será de negros e pardos. E são eles que sofrem todos os recordes de mortes violentas. A cada 23 minutos é assassinado um jovem negro. 71% dos assassinatos são de pessoas negras. E enquanto a taxa de homicídios de brancos diminuiu 12%, a de negros aumentou 18%, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Diante dessa tragédia vivida pelos descendentes dos escravos, é urgente perguntar aos candidatos a governar o Brasil como pretendem abordar essa guerra aberta contra os negros e como farão para assegurar um futuro de igualdade de oportunidades que lhes devolva a dignidade que lhes foi roubada. Manter o país dividido entre negros e brancos é perpetuar a injustiça engendrada durante os 300 anos de escravidão. Escravidão, a brasileira, que foi uma das últimas a serem abolidas no mundo. Somente em 1888.

“Não sei se o Brasil está preparado para aceitar um presidente negro”, afirmou o juiz Joaquim Barbosa, que acabou renunciando a ser candidato às eleições presidenciais. De qualquer forma, negro ou branco, o próximo presidente não pode fechar os olhos para toda essa massa de jovens negros que morrem a cada hora vítimas da violência.

Urgem políticas sérias, concretas, realistas, capazes de encerrar para sempre esse triste capítulo da discriminação sofrida por essa maioria da sociedade, que além de ter sido condenada a não poder estudar como os brancos, o que fez que tivessem que aceitar os trabalhos mais humildes, são os mais expostos a uma morte precoce e violenta. Hoje, no Brasil, a grande maioria das domésticas, por exemplo, são negras ou pardas e cabe lembrar que o vocábulo “doméstica”deriva dos escravos que deviam ser “domesticados”, como se fazia com os animais de carga.

A sociedade brasileira ainda está impregnada de racismo aberto ou dissimulado. Isso significa rever o que os sociólogos chamam de “rejeição sutil.” É o que sofreram, por exemplo, duas meninas negras que, depois de voltar da escola, perguntavam a suas mães: “Por que as outras crianças nos acham esquisitas e não falam conosco?”

A linguagem cotidiana muitas vezes nos trai. As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”. Diz-se que o preto é a cor do pecado. Usamos o verbo “denegrir” que significa “manchar uma reputação que era limpa” . O preto suja.

A linguagem nunca é inocente e, às vezes, as palavras carregam uma forte carga de dor e agressão. Uma jovem negra africana ouviu uma senhora dizer como um elogio: “Bem, filha, eu não te vejo tão negra como dizem.” Uma empregada negra teve que suportar o seguinte elogio da família para quem trabalhava: “Você é uma preta de alma branca.” Tão sutil é a associação do preto com o inferior que até no jogo de xadrez as primeiras peças que se movem são as brancas. O branco é que dá sorte, não o preto.

Como enviado especial a uma viagem do papa a Uganda, fiquei surpreso ao ver, nas igrejas da África negra, anjos brancos como a neve. Contaram-nos que os missionários europeus diziam àqueles africanos que, se se comportassem bem e se tornassem cristãos, “ressuscitariam brancos no céu”.

Sempre acreditei que a poesia é um dos instrumentos que pode nos libertar das sombras de racismo incrustadas em nosso inconsciente. No livro Poemas para Metrônomo e Vento, de Roseana Murray, que acaba de ser publicado pela Penalux, há um poema intrigante intitulado A Pele Negra. O poema trata, com rara delicadeza, precisamente dessa dor que pulsa sob a pele dos negros. Quis reproduzi-lo para os meus leitores amantes da poesia como um exemplo de linguagem empática com essa ferida ainda aberta na nossa sociedade.

A pele negra

A harpa
que ondula
debaixo
da pele negra,
debaixo,
dos antigos
açoites,
e antes,
debaixo da noite,
suas tochas
e panteras,
essa harpa
nunca se cala,
seus acordes
profundos,
oceânicos
atravessam
séculos de memória
e dor,
não dormem.


Só mantendo desperta essa “harpa que não se cala” sob uma pele que conserva as cicatrizes dos antigos açoites contra os escravos, só estando atentos para não silenciar séculos de memória e dor, seremos capazes de nos livrarmos do peso do nosso racismo aberto ou sutil. Já que, como diz o poema, essa harpa não só não se cala, mas “seus acordes (...) não dormem”. Permanecem despertos para nos lembrar que não é a cor da pele que nos distingue e separa, mas a capacidade de aceitar que somos filhos do mesmo barro.

Piorou

Não deu nos jornais, mas aparece nas conversas triviais. A gente aqui em São Paulo está com a impressão que o trânsito tem melhorado nas últimas semanas. Não é boa notícia. Se as pessoas estão circulando menos, para o serviço, compras e diversão, é sinal que a economia anda mais devagar que os carros. Não tem nada a ver com a crise dos combustíveis dos últimos dias. Isso vai piorar o sentimento, mas a coisa vem de antes.

Estava cogitando dessa hipótese, quando saiu ontem o Índice de Confiança do Consumidor, da FGV, mostrando que os brasileiros estão de fato mais desconfiados com o que vem pela frente. O índice, feito à base de entrevistas pessoais, pede que o consumidor avalie sua situação atual e as perspectivas para os próximos meses. O dado de maio – apurado antes do movimento dos caminhoneiros – foi curioso. As pessoas acharam que as coisas até melhoraram um pouco nos últimos dois meses, mas se mostraram bem menos animadas em relação ao futuro.

Em números: o Índice de Situação Atual, subiu para 77,2 pontos; o de Expectativas caiu forte, para 94,2, o menor desde setembro de 2017. Foi o segundo mês seguido de queda nesse indicador, depois de uma sequência positiva.


Repararam que a avaliação do presente é pior que a expectativa. Isso é normal. Parece que o brasileiro é sempre otimista, ou seja, acha que futuro será melhor que o presente. Continua assim, mas dois meses atrás havia mais confiança para a frente.

Como explicar? Talvez a inflação muito baixa permita um conforto no presente. Por outro lado, embora o IPCA amplo mostre que a inflação, na média, aumenta menos de 3% ao ano, o fato é que alguns preços muito sensíveis estão em alta forte. No IPCA-15 (inflação dos 30 dias encerrados em 15 de maio), a conta de luz, os remédios e a gasolina pesaram nos orçamentos.

Preços de alimentos continuam em queda – e isso tem efeito positivo poderoso. Já o dólar…

Tudo considerado, pode-se dizer o seguinte: a economia virou o ano ganhando fôlego. Nada espetacular, mas depois de uma forte recessão, um crescimento moderado – com a geração de 1,5 milhão de empregos em um ano – permitia algum alívio e, especialmente, a esperança de que o país estava mesmo saindo do buraco.

Foi essa expectativa que esmoreceu nos últimos dois meses. Os indicadores econômicos continuaram oscilando muito, mas indicando uma tendência mais moderada. Todo mundo reduziu suas previsões de crescimento para este ano, de 3% para 2,5%.

Convenhamos, não é uma grande diferença. Continua um PIB em expansão com inflação média no chão. Mas, se permitem, o jeitão da coisa ficou um pouco mais feio. A percepção de que a recuperação para valer, com recuperação de empregos, depende de muitos fatores ainda em suspenso, como, claro, quem será o próximo presidente.

Não foi só aqui. Ainda ontem saíram indicadores mostrando que a economia da União Europeia desacelerou, assim como a japonesa. Entre os ricos, os Estados Unidos continuam em marcha forte, mas com um viés negativo. Eis a sequencia: mais crescimento, mais estímulo, mais inflação, sobem os juros, valoriza-se o dólar, desvalorizam-se as demais moedas, especialmente dos países emergentes, incluindo a gente. Ou seja, dólar mais caro atrapalha muita gente.

Acrescentem aí a ameaça ainda presente de uma guerra comercial entre Estados Unidos e o resto do mundo, os riscos geopolíticos (Irã, Rússia) e a alta dos preços do petróleo – e temos fatores suficientes para gerar desconfiança. E situações concretas difíceis.

A crise dos caminhoneiros vem lá de fora: combustíveis e dólar mais caro.


A economia mundial continua em expansão, pelo terceiro ano seguido. A China garante seus 6,5% de crescimento, o que é bom para seus fornecedores, Brasil muito incluído. Mas algo apareceu no ar, uma sensação de que não é bem assim.

Fazer o quê?

Temos bastante serviço por aqui. O governo e o Congresso têm muitas matérias importantes para aprovar, a começar por alcançar algum alívio para os caminhoneiros. Estes podem até estar exagerando – e estão – mas um aumento de 50% no diesel, em menos de um ano, é difícil de suportar.

A Petrobras também estava fazendo o que tem de fazer. Compra mais caro, vende mais caro. E os governos não têm dinheiro para reduzir impostos.

Apenas um exemplo das enrascadas em que nos metemos. E que exigem dos governantes e legisladores mais do que briguinhas para saber quem pode mais. E, dos políticos, mais do que salvar o deles.

Imagem do Dia

Toledo (Espanha)

É hora de rediscutir privilégio da prisão especial

Sergio Moro trancou Lula numa “sala reservada” da Polícia Federal. Atribuiu o privilégio à “dignidade do cargo” que o preso ocupou. O juiz Luiz Carlos Rezende e Santo também enviou o tucano Eduardo Azeredo para uma “sala de Estado Maior”. Por quê? As penitenciárias mineiras ''passam por problemas de toda sorte”, escreveu o juiz. E Azeredo, figura de “inegável status”, “ex-governador”, merece “segurança individualizada”, justificou o magistrado. Decisões desse tipo ajudam o brasileiro a enxergar mais uma velha anomalia nacional: a cana dos poderosos.

No Brasil, os criminosos são tratados conforme o status social e a graduação profissional. Um político poderoso ou qualquer cidadão com canudo universitário —médico, advogado, jornalista…— mata uma pessoa e vai para uma prisão especial. Um jovem da periferia é flagrado com uma pequena quantidade de maconha e é enfiado numa cela superlotada, virando mão-de-obra para as facções criminosas.

Um ex-presidente e um ex-governador se beneficiam de dinheiro roubado do povo e vão para acomodações com banheiro privativo, TV individual, roupa de cama limpa, café da manhã, almoço, jantar e ceia. A suavidade do castigo é regulada pela origem do preso, não pela gravidade do crime. É aviltante, mas tem amparo legal. Ou igualam-se os presos ou elimina-se o privilégio. Extinguindo-se a cana especial, petistas e tucanos organizarão passeatas contra o abandono e a superlotação das prisões. Do contrário, logo, logo haverá filas de sem-teto exigindo hospedarias especiais como as de Lula e Azeredo.

Vida adjetivada


Como é fácil a vida quando ela é fácil, e como é difícil quando ela é difícil
Philip Roth (1933-2018)

O TCU pode abrir a caixa da OAB

A notícia é boa, resta saber se vai adiante. A repórter Daniela Lima revelou que o Tribunal de Contas da União pretende abrir a caixa-preta do cofre da Ordem dos Advogados do Brasil. Estima-se que ele movimente a cada ano R$ 1,3 bilhão anuais. Cada advogado é obrigado a pagar cerca de R$ 1 mil em São Paulo e no Rio, e a administração do ervanário é mantida a sete chaves. Se isso fosse pouco, o presidente do Conselho da Ordem é eleito indiretamente. Em 2014, seu titular, o doutor Marcos Vinicius Coêlho, prometeu realizar um plebiscito entre os advogados para saber se eles preferiam uma escolha por voto direto. Disse também que colocaria as contas da OAB na internet. Prometeu, mas não fez.

A Ordem foi uma sacrossanta instituição, presidida no século passado por Raymundo Faoro. De lá para cá, tornou-se um cartório de franquias. Em 2015, na qualidade de presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o deputado Wadih Damus (PT-RJ) condenou o instituto legal da colaboração dos réus da Lava-Jato: “Delação premiada não é pau de arara, mas é tortura.” Ele tem todo o direito de dizer isso como cidadão, mas uma ordem de advogados não tem nada a ver com isso. A OAB defendeu o financiamento público das campanhas eleitorais e meteu-se na discussão dos limites de velocidade no trânsito de São Paulo. Esses assuntos não são da sua esfera, como não o são do sindicato dos médicos, e disso resulta apenas uma barafunda. Cada advogado pode ter as ideias que quiser, mas nem a Ordem, nem suas seções estaduais, devem se meter em temas tão genéricos e controversos. Coroando as interferências divisivas da Ordem, ela defendeu a deposição de Dilma Rousseff.

Uma Ordem de advogados pode tomar posição em questões gerais, como a OAB de Faoro desmontando o Ato Institucional nº 5. Mesmo nesse caso, não custa lembrar que o texto do instrumento ditatorial foi redigido pelo ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, ex-diretor da Faculdade de Direito da USP, sucedido no cargo por Alfredo Buzaid, outro diretor das Arcadas. Ao contrário do que ocorre com os médicos, comprometidos com a saúde dos pacientes, o compromisso dos advogados com o Direito é politicamente volúvel. A Constituição da ditadura do Estado Novo foi redigida por Francisco Campos, um dos maiores juristas do seu tempo. Felizmente, naquele Brasil havia também um advogado como Sobral Pinto, defendendo Luís Carlos Prestes com a lei de proteção aos animais.

Quando os juízes da Corte Suprema dos Estados Unidos chegam ao aeroporto de Washington, tomam táxis. Quando os conselheiros da OAB chegam a Brasília, têm à espera Corollas pretos com motorista. Esse mimo é extensivo à diretoria da instituição. (O juiz Antonin Scalia dirigia sua BMW. Seu colega Harry Blackmun andava de Fusca e nele viajaram suas cinzas para o cemitério.) Num outro conforto, se a OAB recebe um convite para participar de um evento na Bulgária, seu representante viaja com a fatura coberta pelos advogados brasileiros.

Não se pode pedir que a sigla da OAB deixe de ser usada como mosca de padaria, mas será entristecedor vê-la defendendo o sigilo de suas contas.

O mundo precisa de adultos responsáveis, não de otimismo infantilizado

São Paulo, a maior cidade do Brasil, pode enfrentar mais uma vez uma crise da água em ano eleitoral. E não em qualquer eleição, mas nesta que se anuncia como uma das mais duras e truculentas da história recente, agravada ainda pelas “fake news”. Na primeira crise da água, em 2014, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) reelegeu-se no primeiro turno afirmando que estava “tudo sob controle”. Apesar das evidências cotidianas de que algo muito grave estava acontecendo, a maioria da população de São Paulo preferiu acreditar que tudo ia ficar bem e a vida poderia ser retomada sem maiores alterações. A descoberta mais importante revelada pela crise foi o nível de desconexão com a realidade a que as pessoas podem chegar para não serem obrigadas a enfrentar as dificuldades, fazer mudanças permanentes na vida e pressionar os governantes e legisladores por políticas públicas. E como estão dispostas a acreditar em qualquer um que pronuncie a expressão “sob controle”. O problema é que qualquer pessoa que diga, em tempos de mudança climática, que algo está “sob controle” ou é mentiroso ou é maluco. Mas de novo estamos voltando a esse tipo de irresponsabilidade alimentada pela incapacidade de se responsabilizar de adultos infantilizados que preferem acreditar em qualquer estupidez a ter que enfrentar o mal-estar que sentem nos ossos.

No evento que marcou os 15 anos do Fórum Pacto Global, da Rede Brasil das Nações Unidas, em 16 de maio, Vicente Andreu, ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), fez uma intervenção contundente no palco do auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP): “Não é justo vir a um evento desses e não falar o que (a pessoa) realmente sente. A água no Brasil é uma agenda política rebaixada. O tema da água só aparece na eleição como tragédia e denúncia, sem propostas”, afirmou.


As séries históricas, algo tão mencionado na crise de 2014, já não fazem sentido num planeta alterado pela mudança climática. “As nossas séries históricas, aquele mecanismo que a gente sempre utilizou, de olhar pra trás para projetar o futuro, acabou. Não tem mais condições de se fazer absolutamente nada com as séries brasileiras. Eu sou estatístico de formação... Quem tentar fazer alguma correlação com as séries históricas nos últimos dez anos no Brasil aqui no Cantareira (principal sistema de abastecimento de água de São Paulo) matematicamente faz, mas pra que serve?”, questionou Andreu, um dos principais articuladores do Fórum Mundial da Água, que se realizou pela primeira vez no Brasil em março. “A variabilidade do período do ciclo hidrológico em função das mudanças climáticas está completamente alterada no Brasil e no mundo. E ainda se tenta explicar o amanhã por uma média.... Fica mais ou menos assim: não tá na média nunca. Aí, no ano que dá na média, alguém corre lá e diz: ‘Ó, voltou ao normal, voltou pra média’. Mas a normalidade agora é a exceção.”

Segundo Vicente Andreu, existe a possibilidade de uma crise da água em São Paulo ainda pior do que a de 2014. Ele afirma também que, apesar de o Cantareira ter deixado de abastecer 1,6 milhão de pessoas, o consumo seria hoje de 300 litros por habitante ao dia, o mesmo que antes da crise. “O gráfico de abril no Cantareira bateu em 2014. Se não chover em maio vai ser pior do que 2014. Então não dá mais pra tentar vender para as pessoas uma segurança que não tem. Nós temos que afirmar, sem vergonha: ‘Não sei, não sabemos’”, diz. “Temos que trabalhar com o princípio da precaução. E o princípio da precaução é, por natureza, pessimista. Essas coisas precisam ser tratadas de maneira verdadeira, com a complexidade, com as incertezas que as coisas têm, para que as pessoas acreditem. Se elas não acreditarem, não adianta nada.”

Ser responsável hoje é afirmar que a situação NÃO está sob controle. Por irresponsabilidade geral, a crise de 2014 não provocou mudanças significativas e permanentes nos padrões de consumo. Há muito o que fazer na indústria e na agricultura, que têm muito mais impacto, assim como nas casas das pessoas. Nem foram feitos os investimentos necessários em reflorestamento e recuperação da vegetação do entorno do Cantareira, uma medida mais do que urgente. A Mata Atlântica é uma floresta arrasada. É preciso recuperá-la. Quem se agarra a séries históricas está, de fato, se agarrando a seus empregos num planeta que já mudou.

Pode chover mais ou menos neste ano. A crise da água pode ser maior ou menor. O que é preciso compreender é que não é uma crise e outra crise lá não sei quando, mas uma catástrofe em curso, uma realidade deste momento histórico com a qual temos que lidar, na qual haverá um número maior e mais frequente de eventos extremos. Não é opcional. A mudança climática está aí. E não vai embora porque enfiamos a cabeça dentro de um frasco de Rivotril.

Há várias barreiras travando o enfrentamento desse momento de urgência. A primeira delas é que os adultos dessa época carregam uma mentalidade de século 20 e estão criando filhos com uma mentalidade de século 20. Ainda com a convicção de que bastam obras e tecnologia que tudo se resolverá, na crença absoluta da potência humana. Seguidamente sem perceber que esse “pode tudo” causou uma mudança na Terra. Tanto que cientistas respeitados defendem a alteração do nome desse intervalo de tempo geológico do planeta, que passaria a se chamar de Antropoceno – ou o período em que a espécie humana se tornou uma força capaz de deformar a paisagem global.

Outra barreira é o momento geopolítico, com um pesadelo como Donald Trump liderando a maior potência mundial e as democracias em crise existencial profunda. No Brasil, que abriga a maior porção da maior floresta tropical do mundo e deveria estar dando exemplo, mas não está, perdeu-se a chance de fazer uma grande mudança de paradigma quando São Paulo viveu a crise da água. Os interesses eleitoreiros se impuseram, e a população, já esgotada por tantas dificuldades econômicas e decepções políticas, se deixou alienar mais uma vez.

O debate sério sobre a água e a mudança climática só entrará na pauta das eleições deste ano se houver muita pressão dos eleitores. Sem políticas públicas para enfrentar os desafios do aquecimento global e outras alterações provocadas pelos humanos, o que inclui desde zerar o desmatamento na Amazônia até ampliar o saneamento básico para toda a população, não há enfrentamento de fato. Mas o contexto é de rebaixamento da política, de um modo geral, e de baixa credibilidade dos políticos tradicionais. Para agravar, Jair Bolsonaro, que já se revelou incansável no ato de proclamar sua ignorância sobre todos os temas, lidera as intenções de voto em cenários sem Lula.

Quem trabalha com as questões da mudança climática tem se feito uma pergunta recorrente: como fazer com que as pessoas compreendam o que acontece hoje no planeta e passem a agir, o que significa tanto pressionar o poder público para tomar as medidas necessárias quanto mudar padrões arraigados e se adaptar a uma vida que será diferente? Havia a expectativa de que São Paulo, pelo tamanho e importância que tem no cenário brasileiro, pudesse ser um laboratório de conscientização e propostas criativas durante a crise da água que começou em 2014. Mas a oportunidade foi perdida. E a crise da água logo foi esquecida pelos que ainda têm o privilégio de poder esquecê-la, como se tivesse sido apenas um soluço.

Com os índices do Cantareira se revelando mais uma vez perigosos, as falsificações e mascaramentos já começaram. Nesta segunda-feira, 21 de maio, o Cantareira estava com 47,8% da capacidade. Em 2012 e 2013, anos que antecederam à crise, o Cantareira operava com 73,5% e 61,5%, segundo reportagem do UOL. Mas a Sabesp (empresa de saneamento do estado de São Paulo) já afirmou que “não há motivo para preocupação”. A irresponsabilidade do “sob controle” já começa a ecoar. Afinal, Geraldo Alckmin deixou o cargo de governador de São Paulo para disputar a presidência da República pelo PSDB.

Há ainda uma outra barreira impedindo que as pessoas despertem. E esta pode ser a mais difícil de transpor. Esse momento da história, no qual a mudança climática se torna o maior desafio, encontra um tipo de humano que foi moldado pela indústria do entretenimento. Homens e mulheres se tornaram adultos infantilizados esperando que lhes digam o que está acontecendo, o que pensar e como reagir, e o que têm de consumir a cada vez, de produtos materiais a conceitos. É nessa chave que entra a atual neurose do “otimismo”, que faz com que os “pessimistas” se tornem uma espécie de traidores que não querem que o mundo melhore.

Já escrevi neste espaço e não me canso de repetir: acusar o mal-estar dessa época é um sinal de saúde mental. Agir como carneiros saltitantes de desenho animado enquanto a Amazônia é destruída, a falta de água ameaça São Paulo, o Ártico degela aceleradamente, os eventos climáticos extremos se sucedem e as populações mais frágeis começam a se deslocar pode demonstrar dificuldade para se conectar com a realidade. Com essa negação é preciso se preocupar.

Mas é para esse tipo de comportamento que a indústria de entretenimento preparou a geração de consumidores de emoções que aí está. E está preparando a nova que vai assumir um mundo em dificuldade extrema. As carinhas sorridentes, a raivinha e os coraçõezinhos das redes sociais são um estágio a mais na infantilização da humanidade. Somos adultos botando desenhos fofos em posts o dia inteiro.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

As bruxas de hoje

Você sabia que na Europa, entre 1550 e 1700, 80.000 pessoas foram levadas a julgamento acusadas de bruxaria? Para a metade delas o destino seria a morte, quase sempre na fogueira. Subitamente, todo este fanatismo absurdo sumiu! Tão rapidamente como chegou, desapareceu da "ordem do dia". Por que será?


A pergunta fica ainda mais intrigante diante do fato de que até cerca de 1400 a Igreja Católica simplesmente dizia que bruxas não existiam! É digno de menção, a propósito, um decreto do Papa Alexandre IV, datado de 1258, proibindo execuções em função de "bruxaria".

Esta estranha anomalia, que passou desapercebida aos olhos de larga parcela da humanidade, aguçou a curiosidade de dois pesquisadores norte-americanos, Peter Leeson e Jacob Russ. Ambos observaram, inicialmente, um detalhe: o início da "caça às bruxas" coincidiu com o da denominada Reforma Protestante.

Havia, pois, que se criar um "inimigo", um "perigo social" que induzisse na população um sentimento de pânico, desestimulando adesões a quaisquer novas ideias ou doutrinas. Não por acaso, citam os pesquisadores, a Alemanha, berço da Reforma Protestante, foi palco de 40% de todos os julgamentos por bruxaria. A radical Escócia, e só ela, julgou nada menos que 3.563 pessoas por tal motivo. Enquanto isso, por conta de suas posições firmemente tradicionalistas, a Espanha, Itália, Portugal e Irlanda, somados, contribuíram com apenas 6% do total!

Logo depois, apontam os pesquisadores, toda uma série de tratados de paz colocou um fim a um ciclo de guerras, muitas das quais tinham como pano de fundo precisamente certas questões religiosas - e eis que, então, como que por mágica, a "caça às bruxas" foi varrida para debaixo do tapete da história. Ficou apenas a lembrança, cada vez mais tênue, dos tantos anônimos que enfrentaram a morte na fogueira, elevada à condição de monumento em honra da crueldade humana.

Alguns séculos se passaram. Chegamos ao início de um novo milênio. É quando convido-o a ir à janela e contemplar o mundo dos nossos dias - e a imensa quantidade de "bruxas" que nele tem sido criadas, de forma a satisfazer interesses os mais abjetos. Medite sobre os direitos civis e sociais, duramente conquistados, que temos perdido por conta delas - afinal, há que se sacrificar alguns por certas causas.

Pedro Valls Feu Rosa

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Corrupção, confiança e democracia

Norberto Bobbio, em artigo de 1993, sublinhou que a democracia necessita de confiança – “a confiança recíproca entre os cidadãos e dos cidadãos nas instituições”. Essa confiança se esvai em diversos países, por diversificados motivos. Por isso a questão da democracia hoje é “a da reconstituição dos laços de confiança entre governos e governados”, como aponta Fernando Henrique Cardoso em seu recente Crise e Reinvenção da Política no Brasil.

Uma das causas da perda de confiança é a corrupção. Com efeito, a transparência (que traduz a exigência democrática do exercício em público do poder comum, como ensina Bobbio) tem revelado, em função da Lava Jato, uma sistêmica e ilícita associação entre o poder e o dinheiro, e a existência de uma surpreendente corrupção em larga escala. E a corrupção, para evocar a clássica lição de Políbio, é um tenaz agente da decomposição e cupinização das instituições públicas.

A corrupção mina o espírito público, como aponta Raymond Aron em Democracia e Totalitarismo. Afeta a confiança da cidadania, que passa a duvidar de tudo. A corrupção, como pontua Bobbio no artigo acima mencionado, escrito no momento em que a Itália vivia o impacto da Mãos Limpas – que comporta analogia com a Lava Jato –, é um ingrediente da realidade política que leva à dúvida sistemática e à semente da desconfiança.


A semente da desconfiança no âmbito da sociedade brasileira vem se transformando num ovo de serpente. Está comprometendo valores que são inerentes ao bom funcionamento das regras do jogo democrático. Entre eles, a tolerância, que postula a confiança no diálogo da convivência, ou seja, no reconhecimento do Outro como adversário, e não como inimigo. Daí, no cenário político brasileiro, uma convulsão de sectarismos e a exacerbação da divisão da vida política num intolerante e desqualificador nós/eles.

Essa intolerância põe em questão o que os americanos chamam de common ground, ou, como esclarece FHC, “o terreno, público ou privado, no qual o interesse das pessoas se encontram e em nome do qual um país cria um destino nacional”, capaz, realço eu, de enfrentar os desafios da contemporaneidade que transitam pelas realidades da globalização.

A semente da desconfiança vem frutificando na sociedade brasileira. Cabe lembrar que a ética específica da atividade política, que leva ao bom governo, é o empenho no interesse público. É por essa razão, como também ensina Bobbio, que a distinção entre boas e más ações governamentais deve correr paralelamente às ações voltadas para o bem comum, distintas das voltadas para o bem individual. Isso torna inaceitável o “rouba, mas faz”.

Com efeito, tendo como antecedente o mensalão, a repercussão da Lava Jato cria a percepção de que o convergente e positivo paralelismo acima mencionado não vem caracterizando de maneira abrangente a classe política do País. Daí a desconfiança na sua aptidão e integridade para mover e ampliar a capacidade de resposta das instituições políticas para atender às exigências e aspirações da sociedade que, inter alia, transitam pela inclusão social e pela redução da desigualdade.

Essas aspirações estão em sintonia com os valores implícitos da democracia, que postula que a renovação gradual da sociedade, pela atuação das regras do jogo democrático, caminha em direção da solidariedade, inerente à conjugação da liberdade com a fraternidade.

Essa capacidade de resposta tem uma complexidade própria, que deriva das diferenças oriundas da passagem das sociedades modernas (formadas pela civilização capitalista urbano-industrial) para as sociedades contemporâneas. Nestas, como observa FHC, os novos inventos alteraram as formas de sociabilidade e do interagir, as crenças, os valores e os modos de produção. É por essa razão que a capacidade de resposta também passa pelo desafio substantivo de lidar com as limitações externas que se colocam para a latitude das ações do governo e das sociedades nacionais na era da globalização contemporânea que internaliza o mundo na vida dos países.

Em síntese, a base do poder numa democracia de quem define o governo – os eleitores – não está à vontade e desconfia do como se governa da democracia no Brasil. A isso cabe acrescentar uma observação de ordem geral.

A democracia é uma contínua “ideia a realizar”. É ao mesmo tempo uma cultura e uma prática, um aprendizado. Não é, como lembra Octavio Paz, um absoluto, mas um método de convivência civilizada, livre e pacífica. Não assegura, porém, nem a felicidade nem a virtude. Por isso a vida numa democracia pode ensejar uma defasagem entre a imaginação e os sentimentos que motivam o empenho na política – que foi o que caracterizou o esforço coletivo da cidadania no Brasil em prol da redemocratização, no combate ao regime autoritário militar – e os seus resultados subsequentes. É o que provoca a decepção. Esta, como explica Albert O. Hirschman, é um fator de ordem geral que opera no contexto político, pois nem todos se satisfazem em exercer na esfera pública apenas a paixão do possível. É a decepção que abre espaço para o simplificador engano demagógico dos populismos, dos nacionalismos excludentes e xenófobos, das formas caudilhescas de poder carismático, que levam à degeneração da democracia em autocracias eletivas.

Em matéria de política, como na cultura, os signos e os símbolos não contam menos do que as realidades sociais e políticas. Daí a relevância destas considerações para o futuro da nossa democracia, pois a palavra dos candidatos nas eleições deste ano não pode ser a da morna banalidade que não indica rumos e oculta os desafios. O risco – que só a democracia pode conter – é abrir espaço para o governo dos piores, a kakistocracia de que fala Michelangelo Bovero, no qual adquirem preeminência os demagogos do pão e circo, os plutocratas da associação do poder e do dinheiro e os cesarismos de plantão.

Sob o signo da incerteza


O futuro é incerto e no Brasil tudo pode ocorrer. Aqui, o Sargento Garcia é capaz de prender o Zorro; e, como se diz, até o passado é incerto 
Carlos Melo 

'O futuro não ia ser assim': Pobreza extrema volta a crescer no Brasil

Em 14 de maio de 2017, Maria Silva Nunes, sexagenária, negra e com uma expressão de cansaço permanente no rosto, passou da classe social mais baixa do Brasil para a pobreza extrema. Era o Dia das Mães e sua família, com a qual levava uma vida precária em Heliópolis, a favela mais populosa de São Paulo, ia se reunir para comemorar. Ali estavam suas três filhas: a doente que ainda mora com ela, a que teve o primeiro de três filhos aos 16 anos e até a que está na prisão, beneficiada pelo indulto do Dia das Mães. O dia começou bem e terminou no extremo oposto. “Fabiana, a do meio, parecia que estava dormindo na cadeira, cansada de tanta criança e tanta festa, mas não estava dormindo, estava morta”, lembra Maria Silva, retorcendo os punhos encostados na mesa do refeitório de uma escola. Não revela a causa da morte: aperta os lábios como se reprimisse um gesto, aguardando a próxima pergunta. “Ela estava morta, o queixo estava no peito. Morta.”


Tudo o que aconteceu depois, que arruinou a frágil existência de Maria Silva Nunes aos 63 anos, aconteceu de forma precipitada, uma reação atrás da outra. O marido da falecida e pai de seus três filhos pegou um deles e desapareceu. “Ele é catador, o que vai fazer?” Maria Silva herdou a responsabilidade de cuidar dos outros dois, de 16 e 12 anos, em uma idade em que outras mulheres estão se aposentando. Com Fabiana se foi também o dinheiro que ela lhe dava todo mês. Nem conseguiu manter o Bolsa Família: “Isso é para pais e filhos, não te dão se você é avó”, intui. Em casa também está a outra filha em liberdade, que não tem trabalho e seu filho. Há meses em que entram apenas 60 reais e nada mais: são os meses em que, se a cesta básica acaba, Maria Silva sai em busca de comida no lixo. Mais dia menos dia, supõe, vão cortar a luz. “Devo 583 reais em contas e ainda não sei como vou repor o pacote de arroz que está acabando.” E, depois, teme que sua família ficará sem casa. Naquele Dia das Mães, Maria Silva perdeu uma filha e tudo que a impedia de afundar ainda mais. “Tudo ficou difícil. E continua difícil”, suspira. “Não tenho ninguém. Aqui é só eu e Deus.”

Maria Silva Nunes tropeçou em uma das frestas mais nocivas do Brasil recente: o aumento de 11% na pobreza extrema desde o final de 2016, um buraco negro pelo qual passaram, como ela, um milhão e meio de habitantes. Em um país em que o Governo celebra a recuperação econômica após anos de recessão, havia, no início de 2017, 13,34 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema; no final do mesmo ano, já eram 14,83 milhões, o 7,2% da população, segundo relatório da LCA Consultores divulgado pelo IBGE. Apesar de não serem números astronômicos, esse é o segundo ano consecutivo em que a tendência se mantém após o progresso espetacular do país entre 2001 e 2012, quando se erradicou 75% da pobreza extrema no Brasil, de acordo com cálculos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).


“A queda da pobreza naqueles anos é explicada pela melhora do mercado de trabalho, que vem se deteriorando nos últimos anos. Há menos formalidade, ou seja, há pessoas trabalhando sem carteira assinada, enquanto os salários, em geral, não estão crescendo”, pondera o economista Fernando Gaiger, que pesquisa a pobreza e a desigualdade para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Isso tem mais a ver com a recessão do que com a reforma trabalhista de Temer, cujos resultados só começaremos a ver no final do ano que vem. Mas é inegável que pioramos. Alguém sem carteira assinada perde o emprego e depois a casa e logo logo está na rua. De uma hora para outra, tudo muda.”

Priscila Mourilo, vizinha de Maria Silva em Heliópolis, nunca imaginou que seria vítima dessa questão trabalhista. Quando era pequena, essa jovem na casa dos vinte anos, de costas largas e cabelos castanhos se sentia mais ou menos segura porque seu pai trabalhava em uma copiadora. Podiam viver sem grandes dificuldades com outros vizinhos da classe média baixa em Diadema, na periferia de São Paulo. “Entrava, saía... Era uma mulher livre”, lembra hoje. Se apaixonou, foi morar em Heliópolis, de onde era seu namorado, e lá teve três filhos. O namorado desapareceu depois de algum tempo, mas deixou-a ficar no apartamento de sua mãe. E aí os problemas começaram. À medida que cresciam, as crianças foram mostrando problemas de desenvolvimento: “O mais velho, Maurício [oito anos], tem uma ligeira deficiência. O menor, Murilo, está com sete anos e acho que também tem. Não para quieto, é impulsivo, não se concentra, não fala bem, não sabe abotoar um botão, não se limpa quando vai ao banheiro...”, diz ela no sofá de sua diminuta casa na favela. Está sob uma enorme mancha de umidade de onde pinga água. No seu colo está Mia, a gata que têm para pegar os ratos que se aproximam da casa.

Forçada a olhar as crianças a cada segundo que passam acordadas, Priscila descarta procurar trabalho. Seu único recurso seria pedir dinheiro ao seu pai, mas ele perdeu o emprego na copiadora depois de 20 anos e não recebeu nenhuma indenização. Também não tem direito a aposentadoria: não tinha carteira assinada. Priscila engravidou outra vez, do mesmo namorado. Sua mãe, sexagenária, teve que deixar a aposentadoria e começar a fazer faxina para sustentar a família. “Eu gostaria de sustentá-los, mas não tenho como”, repete, com olhar envergonhado. Quando cresceu, sabia que não era rica, mas nunca suspeitou que acabaria sendo extremamente pobre.

Em janeiro de 2017, perdeu o Bolsa Família. Nem ela sabe dizer o motivo. “E eu comecei a sentir medo. Medo e fome. Não tinha dinheiro para comprar biscoitos para os meninos, nem fraldas para a menina. Acordava sem saber o que ia comer, se conseguiria arranjar alguma coisa para alimentar meus filhos. Sobrevivo com o dinheiro que minha mãe me manda.” Cerca de 200 reais por mês. O pai das crianças não trabalha? “Ai moço, boa pergunta. Ele cata papelão, não tem dinheiro.” Você sabe como vai passar o próximo mês? “Pelejando. Pelejando como sempre. Mais do que isso não dá para saber. O futuro não ia ser assim.”

Amarraram cachorro com linguiça

Desculpem a expressão pouco polida e, ainda menos, criativa. No entanto, é a exclamação que me ocorre diante do que se cristalizou como cenário das próximas eleições parlamentares.

Promover uma grande renovação nas duas casas do Congresso Nacional era a principal aspiração da sociedade brasileira para a futura eleição parlamentar em 7 de outubro. Tratava-se de pura racionalidade: afastar os corruptos, os coniventes com a corrupção e os incompetentes, preservando os melhores. A conduta dos eleitores, aliás, deveria ser sempre essa, mas os eventos dos últimos anos – em especial os achados da Lava-Jato e operações análogas – tornaram tal conduta uma imposição dos fatos a todo eleitor consciente, a todo cidadão preocupado com o presente e o futuro do país.

Foi no contexto desse clima político-eleitoral que começaram as pressões para extinguir o financiamento empresarial aos candidatos e partidos. Seria esse financiamento (e não o irracional modelo político) “a” causa fundamental da corrupção, por gerar conluio de interesses escusos entre financiadores e financiados. Tão indigno sistema – assim se dizia - deveria ser substituído por uma fonte pública, imune a quaisquer compromissos.


Chamada a opinar, a sociedade não aderiu à tese. Nem mesmo a poderosa organização formada por mais de uma centena de entidades e associações que se integraram na famosa “Coalizão por Reforma Política e Eleições Limpas”, sob a liderança da OAB e da CNBB, conseguiu sensibilizá-la. Empenharam-se os patrocinadores da tese em campanha que se estendeu por mais de um ano, entre 2014 e 2015, tentando, inutilmente, coletar 1,5 milhão de adesões a um projeto de iniciativa popular. O financiamento público encabeçava as propostas. Alegavam expressar o desejo social e pediam assinaturas durante missas em todo o país, mas nem assim conseguiram os patrocinadores coletar a metade disso! O povo jamais considerou ser de seu dever custear campanhas eleitorais, através de recursos públicos pelos quais cada cidadão estaria, inclusive, financiando candidatos contrários às próprias convicções.

A falsa lógica do beatificado fundo eleitoral público, porém, já havia contaminado os “legisladores” do STF. Em setembro de 2015, por oito a três, atropelando, inclusive, um projeto em sentido oposto que procurava disciplinar o financiamento por pessoas jurídicas, o Pleno decidiu que ele era “inconstitucional”.

Resultado: em 2017, o Congresso aprovou a formação de um fundo público para a eleição de 2018. Esse recurso, no montante de R$1,7 bilhão, será destinado aos partidos e neles manejados por seus líderes. E quem são estes? Como regra quase geral, nas executivas nacionais e nas secções estaduais, são deputados federais e senadores. Ou seja, os recursos “públicos” serão privatizados por aqueles que, em grande proporção, a sociedade não deseja ver reeleitos, frustrando-se a efetivação do cristalino anseio nacional pela renovação. OAB, CNBB e STF estão devendo explicações para esse terrível malfeito que realiza o sonho de todos os corruptos cuja reeleição estava em risco! Amarraram cachorro com linguiça, entregando-lhes – logo a eles! – o privilégio de se financiarem com meios que a nação sangrou para produzir e arrecadou na forma de tributos federais. Quem quiser furar esse esquema que trate de correr o chapéu juntando trocados de pessoas físicas, na base da “vaquinha”, ou do me dá um dinheiro aí.

Apesar desse desastroso papelão, persiste o desejo de renovação. Não se omita, não vote em corruptos, preserve os bons e renove. Sobretudo, dedique tempo à escolha que fará, e renove!

Percival Puggina

terça-feira, 22 de maio de 2018

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 Jungho Lee

4 anos depois...

Para evitar qualquer dúvida, é bom a gente esclarecer de cara. O tempo não passou rápido. Os últimos quatro anos passaram devagar. Muito. Como convém a tempos sofridos.

Desde que demos o pontapé inicial na Copa, tudo parece ter mudado. Va lá que em 2014 a gente já sabia que não ia ter trem bala. Ou que os estádios estivessem inacabados e destinados a inutilidade. Pelo menos havia a esperança (sem fundamento, mas esperança é assim mesmo) de que pelo menos o titulo de país do futebol ficasse intacto.


Mas isso dava trabalho. Precisava de organização, treino, força de vontade, e de todas essas coisas que a gente não estava disposto a fazer. Preferimos viver a ilusão de que fraude pode servir como fundação para o sucesso. Acreditamos em nossa própria mentira. E deu no que deu. No final de julho de 2014, a gente já não mais era país do futebol. Viramos uma espécie de quase nação que perdeu o pouco de identidade que ainda se esforçava em reter.

Tudo talvez pudesse ser compensado se, em um surto de bom senso, tivéssemos aproveitado a humilhação para dedicar o tempo ao necessário escrutínio de candidatos na eleição depois da Copa. Teria sido energia bem gasta.

A gente bem que podia ter enxergado a mentira de longe. Mesmo de olhos fechados, dava para sentir o cheiro. Era perfeitamente possível. Mas sabe como é. Não gostamos de responsabilidade. Reclamos, claro, dos resultados. Sempre. Mas sempre na terceira pessoa. Como se a responsabilidade pelos eleitos não fosse do eleitor.

E nessa mistura de desinteresse e autoengano, sofremos por quatro anos. E garantimos sofrimento por muitos mais. 2014 foi o ano em que resolvemos abraçar o engodo. Sabe-se lá o que esperávamos ou porque o fizemos. Faz tempo que isso perdeu a importância.

Lá se foram 4 anos. Sofridos, diga-se. E lá vem a Copa. Quem sabe desta vez a gente não passe vexame. Mas, se o vexame futebolístico for inevitável, pelo menos dá para escolher melhor nas eleições. E não precisar lamentar quando 2022 chegar.

Elton Simões

Escândalo no INSS é retrato do Estado brasileiro

A enorme máquina do Estado brasileiro continua a gerar casos de corrupção impensáveis em qualquer país minimamente organizado, com leis e instituições eficazes. A compra pelo gigantesco INSS, gestor da aposentadoria dos assalariados da iniciativa privada, de software junto a uma pequena empresa cujas instalações eram de uma firma distribuidora de bebidas é um caso exemplar do ponto a que chega a desfaçatez quando se trata de roubar o contribuinte.

Relatada pelo O Globo, a história envolve a RSX Informática Ltda., de Lawrence Barbosa, e o próprio presidente do INSS, Francisco Lopes — retirado do cargo, o mínimo que o Planalto podia fazer —, responsável direto por forçar o fechamento de um contrato de R$ 8,8 milhões com a firma, para a compra de um programa de computador e treinamento de funcionários do órgão. Sugestivamente, com presteza foram liberados R$ 4 milhões para a empresa de softwares (ou de bebidas).

Publicada a reportagem no site do jornal, Francisco Lopes emitiu nota informando a suspensão do contrato feito com a RSX. Era tarde. O golpe reúne ingredientes cinematográficos: repórteres do jornal visitaram, em 9 de maio, o endereço da firma, em um prédio em Brasília, e lá se depararam com garrafas de água mineral e de vinho etc. Retornaram na terça-feira, e o espaço havia sido remodelado com a decoração de um escritório do ramo de informática.


Francisco Lopes sequer abriu concorrência para contratar a RSX, embora alertado pela área técnica do INSS, por meio de um relatório de 25 páginas, sobre a falta de base técnica para a operação, da possível inutilidade do programa e o consequente desperdício do dinheiro do contribuinte.

Não adiantou, a compra foi feita, os R$ 4 milhões, pagos, e resta a órgãos públicos irem em busca do prejuízo por via judicial, sem deixar de vasculhar o amplo universo do Estado para saber se a RSX deu o mesmo golpe em outros cantos da burocracia.

A venda de programa de computador, em troca de milhões, por uma firma, até segunda ordem, distribuidora de bebidas, mostra bem os absurdos que ocorrem nas entranhas do Estado, que custa 40% do PIB, um índice elevado e que supera a arrecadação dos impostos.

Há desde o petrolão, o assalto feito na Petrobras, a este golpe de estelionatários. Convivem neste mesmo mundo a vigarice de comédia italiana e o saque bilionário feito na Petrobras, numa aliança entre o lulopetismo, empreiteiras e diretores da estatal. Um escândalo de repercussão mundial.

Mesmo que existam formalmente organismos de controle, como a Controladoria-Geral da União, o tamanho da máquina e a falta da cultura da eficiência e da meritocracia permitem esses absurdos.

Editorial - O Globo

Brasil de mármore e de murta

O Padre Vieira criou uma ideia em seu Sermão do Espírito Santo, em 1657. Alguns povos, pensava o inaciano, são de difícil mudança e resistem à pregação do Evangelho. Diz o português que: “Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas”. No caso desses povos, a conquista espiritual seria muito complexa e demorada. Uma vez realizada a tarefa hercúlea, a nova imagem seria dura como a pedra e os convertidos ficariam apegados de forma definitiva à Boa-Nova. 

Haveria outros povos, como os indígenas do Brasil, que teriam comportamento oposto. Seriam dóceis e receptivos ao novo modelo religioso. A facilidade da adesão seria acompanhada pela pouca constância no caminho de Jesus. Imediatamente cristianizados e com rapidez voltando às crenças antepassadas. No caso em questão, em vez de mármore, seria como esculpir em um arbusto, a murta, planta sobre a qual o jardineiro hábil pode produzir formas inventivas. Passadas algumas semanas (Vieira fala em 4 dias), o arbusto perde o modelo e retorna ao estado natural. No mundo clássico, a murta era dedicada à deusa do amor, Vênus/Afrodite, reforçando sua mutabilidade. Os “gentios” do Novo Mundo eram alunos ambíguos: aceitariam tudo que lhe ensinam e, teimosos, permanecem apegados ao seu universo de valores. 

A metáfora do lisboeta foi aproveitada por Eduardo Viveiros de Castro. Em artigo hoje inserido em livro (A Inconstância da Alma Selvagem, em nova edição pela Ubu Editora, 2017), o antropólogo discorre sobre o impacto cosmológico provocado pela catequese dos jesuítas, especialmente sobre a prática do canibalismo. Os padres reclamavam que os indígenas adoravam nada e isso dificultava a mudança religiosa, pois escapavam dos modelos de idólatras que os jesuítas tinham a partir da memória histórica da conversão da bacia do Mediterrâneo no Baixo Império Romano. Pior, os indígenas não teriam fé porque não tinham lei e não tinham lei porque não tinham rei. Sem um sistema tradicional de submissão a um rei e a um código jurídico, era difícil substituir o mundo nativo pela nova lei e pelo novo rei europeu. No fundo, o desafio para os jesuítas e para alguns da escola de Émile Durkheim, os tupinambás não tinham religião.

Sem Fé, sem Lei e sem Rei (que Pero de Magalhães Gândavo atribuiu à falta de F, L e R na língua tupi), os habitantes originais daqui seriam incapazes de realizar a incorporação da norma europeia porque não tinham norma anterior. O selvagem seria inconstante e incapaz de adaptar-se a um sistema civilizado. Grande parte do pensamento conservador da intelectualidade brasileira nos séculos seguintes dialogaria com a ideia do Padre Vieira. “O brasileiro não tem jeito”, “a saída para o Brasil é o aeroporto” e outras frases que reforçam a construção (quase sempre urbana e branca) de um país impossível de atingir patamares dignos de uma pátria moderna. A culpa? Ela já foi colocada nos grupos humanos constitutivos da sociedade dos trópicos ou no clima. Haveria, dizem preconceituosamente há séculos, uma combinação nefasta de preguiça, magia e dependência do Estado, fruto da mistura de indígenas, africanos e portugueses. 

Com outro recorte e com outra intenção, há o filme dirigido por Sérgio Bianchi: Cronicamente Inviável (2000). Na obra, as contradições regionais e as diferenças sociais são retratadas não como mazelas que podem ser refeitas a partir de uma ação efetiva, porém algo impossível de ser remediado, pois seria, justamente, crônico. Assim, sem citar Vieira, nós seríamos, como sociedade, um arbusto de murta. Aceitamos docemente qualquer choque de gestão, um programa novo de governo ou um planejamento bem ou mal-intencionado porque, no fundo, todos sabemos que, em breve, tudo voltará ao original informe. Novas chefias e novas regras são bem recebidas, pois, basicamente, não acreditaríamos que possam ser efetivas ou duradouras.

Minha experiência como professor é que toda regra enunciada no início do semestre é recebida com anuência silenciosa pelos alunos. Iniciam-se os trabalhos letivos e, lentamente, os discentes percebem que a regra é real e que será implementada. Então começam os choques e os pedidos para que elas sejam mudadas. É interessante: a regra (ou, se preferirem, a lei) não causa reação. Acredita-se que ela também será murta. Quando é notada a consistência marmórea na implementação, a resistência surge. Lembro-me do espanto de um amigo alemão ao ver a notícia de uma lei estadual afirmando que menores não poderiam comprar bebidas alcoólicas. Ele me perguntou: “Antes podia”? Eu disse que nunca foi possível, que sempre fora proibido, mas agora era efetivamente interditado. Claro, estimado leitor e querida leitora: o alemão não conseguiu entender o advérbio: como seria algo “efetivamente” proibido e como seria possível de distinguir de algo apenas proibido. Notável falta de imaginação germânica para nossa elasticidade interpretativa. Tem jeito? Seremos sempre murta? Bem, outubro está aí e teremos de responder de novo a essa questão. 
Leandro Karnal

Gente fora do mapa

Sai pra lá, Sísifo

A vida é um eterno recomeço. Fosse escolher a lenda mitológica que mais se assemelha à sua vida, provavelmente o povo brasileiro colocaria a história de Sísifo entre as preferidas. Sísifo conseguiu se livrar da morte duas vezes, sempre blefando. Não cumpria a palavra empenhada, até que Tânatos veio buscá-lo em definitivo. Como castigo, os deuses o condenam impiedosamente a rolar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo. A maldição de Sísifo é recomeçar tudo de novo, eternamente.

O povo brasileiro se sente em eterno recomeço. Quando acha que as coisas estão se normalizando, aparece mais um desastre. Nosso habitante se vê numa ilha ameaçada por escândalos, corrupção desbragada, favorecimentos, ausência de critérios racionais, impostos, feudos, deterioração dos serviços públicos, falta de continuidade nas administrações.

O sistema de vasos comunicantes acaba impregnando a alma nacional, inviabilizando aquele espírito público, fonte do fervor pátrio, que Alexis de Tocqueville constatou em A Democracia na América (1835), encantado com os valores da alma norte-americana: “existe um amor à pátria que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde nasceu. Confunde-se esse amor instintivo com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado; aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que se tem à casa paterna”.


Que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados pelo pavor, pela violência, pelo estado de guerra civil do Rio de Janeiro, pelos assaltos nas capitais e cidades do Norte e Nordeste, pela marginalidade incorporando bandos de menores? Que espírito público pode vingar em nossa América Latina quando na vizinha Venezuela as multidões não têm mais o que comer e fogem aos montes para nosso país? O que diria desse Nicolas Maduro o grande libertador Simon Bolívar, que retratou o sofrido continente: “não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento. A única coisa que se pode fazer na América é emigrar”.

O povo quer sentir estabilidade e segurança nas ruas e no emprego. Estabilidade que permita divisar com nitidez a linha do horizonte. Há 13 milhões de desempregados. Como divisar clareza a apenas 5 meses da eleição, sem sinais do que pode ocorrer?

A chama telúrica, que liga as pessoas ao lugar em que nasceram, está quase se apagando. Daqui a um mês teremos a catarse coletiva da Copa do Mundo. E se perdemos? Serão dias de mais amargura. Vamos continuar a ver governos de todas as instâncias usando míseros tostões para administrar massas falidas.

Rezemos para afastar a maldição de Sísifo.

Gaudêncio Torquato

Paraíso da leis

Somos craques em fazer leis. Nossa dificuldade é cumpri-las
Cármen Lúcia, presidente do STF

A desesperança

A cinco meses das eleições para a Presidência da República, a única certeza até agora é a mais importante de todas: o calendário eleitoral está mantido. Não é pouca coisa, num país cuja história é marcada por golpes de Estado como saída para crises. O que preocupa, entretanto, são os vetores de crise que perturbam a economia e a ausência de um projeto novo para um país que se atrasou na globalização.

O primeiro vetor é um cenário internacional em mudança, em razão da política econômica de Donald Trump, cumprindo à risca promessas de campanha que pareciam apenas peças de retórica, entre as quais a guerra comercial com a China. A expectativa de elevação dos juros nos Estados Unidos inverte a direção dos fluxos de investimentos no mundo, que deixam os países emergentes em busca de negócios naquela que ainda é a maior economia do mundo, e agora funciona como uma força centrípeta em relação à periferia. O Brasil já está sentindo o peso dessa variável, agravada por problemas em relação às nossas exportações, principalmente de frango e carne bovina, inclusive em relação ao outro polo da economia mundial, a China. A alta do dólar tem muito a ver com isso.


O segundo vetor é a nossa atividade econômica abaixo da expectativa, com redução das previsões oficiais de crescimento de 3% para cerca de 2,3%. O mercado já trabalha com um PIB de 1,5% a 2,5%, previsão corroborada pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que teve queda de 0,13% no primeiro trimestre deste ano em relação ao último trimestre de 2017. Com isso, o PIB do primeiro trimestre deve ficar na casa de 0,2% em comparação com igual período do ano anterior.

Não por acaso, porém, o BC interrompeu a redução dos juros, que haviam baixado de 14,25% ao ano em outubro de 2016 para os atuais 6,5%. O dólar fechou a semana a R$ 3,74, mesmo com o governo intervindo no câmbio, o que eleva as projeções de inflação para R$ 3,5%. Para quem viajar, o dólar já está quase a R$ 3,95. As expectativas de inflação para este ano, segundo a pesquisa Focus do BC, continuam em torno de 3,5%. O comunicado do Copom ressaltou que no cenário com juros constantes a 6,5% ao ano e a taxa de câmbio constante a R$ 3,60 por dólar, porém, as projeções de inflação sobem para cerca de 4% neste ano e em 2019. A meta de inflação deste ano é um IPCA de 4,5% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, ou seja, piso de 3% e teto de 6%. no país. Havia expectativa de que se mantivesse em torno do piso; agora, o cenário já é outro.

Há um terceiro vetor de crise, que está tendo grande impacto entre os agentes econômicos: a falta de blindagem da política fiscal, mesmo com aprovação do Teto de Gastos, por causa do grande deficit fiscal da União. Com a grande contribuição do Congresso, que abdicou da agenda das reformas, o enfraquecimento contínuo do governo Temer, as renúncias fiscais e a elevação dos gastos públicos pesam muito na balança. Ainda mais com o desgaste provocado pela crise ética, esses vetores somente poderiam ser neutralizados se houvesse um certo consenso entre os candidatos à Presidência em relação à necessidade de redução dos gastos públicos. Isso não acontece. Segundo o economista Arminio Fraga, o próximo presidente terá de fazer um ajuste fiscal de 5% do PIB. Num cenário eleitoral no qual a elite política enfrenta grande desgaste moral, uma proposta como essa não tem nenhum apelo eleitoral, a não ser que viesse acompanhada de um plano de metas robusto.

Até agora, ninguém se apresentou com um programa exequível que enfrente de forma combinada a crise fiscal e o combate às desigualdades. Candidatos que defendem o ajuste fiscal não apresentam um programa capaz de combatê-las. Em contrapartida, os que tratam das questões sociais não estão nem aí para a redução dos gastos do governo, mantendo uma narrativa populista. O resultado é a incerteza em relação à economia, que vinha numa trajetória de gradativo crescimento. Diante dessa situação, a reação dos agentes econômicos é de cautela quanto aos investimentos; e do eleitor, de indiferença em relação ao pleito. Será assim até depois da Copa do Mundo.

O lado mais dramático da situação é um exército de 25 milhões de desempregados, dos quais 11 milhões são jovens nem-nem (não estudam nem trabalham), sem perspectivas a curto prazo, seja porque a economia formal não gera empregos suficientes, seja porque a baixa atividade econômica também não permite a expansão do empreendedorismo. Além disso, nos setores mais dinâmicos, o surgimento de vagas demanda níveis de conhecimento técnico que aprofundam as desigualdades.

Num universo de 144 milhões de eleitores, essa massa de desempregados se deixa seduzir facilmente por propostas populistas e salvadores da pátria. Os eleitores de classe média, cada vez mais divorciados da política e suas instituições, também dão sinais de que não sabem ainda o rumo que vão tomar. Há um mar de desesperança, ainda mais porque a crise ética quebrou a confiança na elite política do país de forma generalizada entre as parcelas mais instruídas da população. No fundo, é preciso reinventar a esperança.